O Programa Pontes Ubuntu visa a capacitação para promoção e restauração da dignidade humana, em contextos em que esta se encontra diminuída ou ferida, através do empoderamento para uma liderança servidora. Desta forma pretende-se contribuir para transformar experiências e contextos de injustiça e exclusão social em dinâmicas de justiça e inclusão social, com reforço da coesão e sentido de pertença.

Uma das metáforas mais expressivas para sintetizar este programa é a da inspiração e capacitação de "construtores de pontes" ou "pontífices". Partindo da evidência que as violações da dignidade humana geram, muitas vezes, um processo de humilhação, ressentimento, fragmentação e violência, coloca-se o desafio de poder reverter esta dinâmica através de pessoas e organizações que promovam a restauração da dignidade respeitando os valores da verdade, da justiça e da reconciliação. A capacitação destas pessoas, particularmente as que são sujeitos desses processos de exclusão, enquanto líderes servidores e pontífices constitui o cerne da transformação social desejada com este programa. O espaço da educação não-formal constituiu o primeiro terreno de intervenção do programa Pontes Ubuntu. No entanto, pretende-se que este método possa vir também a ser desenvolvido em contexto de educação formal.

Através do método Ubuntu dá-se particular importância aos modelos de referência (role models), que começam por ser, desde logo, muitos dos participantes nos diferentes projetos, cujo exemplo e história de vida a todos inspira. Também os participantes de edições anteriores da Academia de Líderes Ubuntu, que assumem o papel de animadores das edições subsequentes cumprem este papel de modelos de referência. Ainda neste domínio, são estudados líderes de projeção mundial, que, no seu contexto histórico, foram exemplos Ubuntu: Nelson Mandela, Martin Luther King, Mahatma Gandhi, Madre Teresa de Calcutá, Desmond Tutu, Aung Sang Suu Kyi, Malala Yousafzai e Aristides de Sousa Mendes. De igual forma, a presença regular de personalidades convidadas a dar o seu testemunho mostra-nos, no nosso tempo, exemplos de empenhamento cívico, empreendedorismo social e promoção da dignidade humana que inspiram através da sua história e da sua mundovisão.

Outros recursos são também utilizados no método Ubuntu. As dinâmicas de grupo selecionadas permitem uma abordagem lúdico-pedagógica dos temas propostos para reflexão e aprendizagem. Os filmes, documentários, músicas e contos constituem igualmente uma ferramenta poderosa para promover o debate sobre os temas centrais que constituem as ações de capacitação. As visitas e experiências representam um outro caminho para proporcionar aprendizagens indutivas, com particular impacto sobre os participantes.

Este programa começou por estar vocacionado, através da ACADEMIA de LÍDERES UBUNTU, para a promoção da liderança servidora em jovens provenientes de contextos de exclusão social, como os descendentes de imigrantes residentes em bairros vulneráveis, mas alargou progressivamente o seu âmbito também para jovens autóctones com igual experiência de vida e para jovens que não sendo provenientes destes contextos, neles estão a intervir. Desenvolveram-se quatro edições em Portugal e, com as necessárias adaptações, uma edição na Guiné-Bissau.

Assumindo que, mais do que com destinatários de ações de capacitação, se procura trabalhar com atores de processos de promoção e restauração da dignidade humana, procura-se dar destaque ao valor da experiência de vida de cada um/a. Conhecer e dar sentido à história de vida de cada participante, iluminando as capacidades de autoconhecimento, resiliência e de empatia evidenciadas, bem como o seu serviço à comunidade, e dessa forma inspirar quem por ela é tocado, constitui o núcleo essencial do projeto VIDAS UBUNTU, hoje também desenvolvido em escolas, lares de infância e juventude, centros educativos e projetos comunitários.

Valorizando a ação dos líderes servidores Ubuntu, através do desenvolvimento de projetos de empreendedorismo social, que abram espaço não só à construção de respostas a necessidades sociais não resolvidas, mas também desenvolvam a sua capacidade de conceção e gestão de projetos, surgiu a INCUBADORA SOCIAL UBUNTU, em Lisboa, Porto e Bissau. Promovendo a colaboração, partilha de experiências, formação e mentoring destes líderes, apoia-os e incentiva-os na sua missão de serviço à comunidade.

A inclusão social através do desporto, em particular, através do rugby, utilizando o método Ubuntu, tem inspirado o trabalho do Academia Ubuntu Rugby, que trabalha com jovens provenientes de contextos vulneráveis e os mobiliza para a liderança servidora.

Tendo consciência da importância de disseminar esta visão estratégica do método Ubuntu, nomeadamente nas comunidades educativas, pretende-se vir a desenvolver formação avançada, sob a forma de Pós-graduação "UBUNTU PARA EDUCADORES: INOVAÇÃO EDUCACIONAL INCLUSIVA", em parceria com instituições de ensino superior.

A filosofia UBUNTU desenvolvida através deste Método, apesar de ter raízes em África é de aplicação universal, constituindo uma plataforma de diálogo e de ação entre pertenças religiosas, étnicas, sociais ou culturais muito distintas, levou à criação da UBUNTU GLOBAL NETWORK. Enquanto rede colaborativa informal de instituições, projetos e pessoas inspiradas, direta ou indiretamente pelo espírito Ubuntu, visa a partilha de experiências e de ferramentas e a possibilidade de desenvolvimento de projetos conjuntos.

 

Método Ubuntu

O Método Ubuntu é um eixo comum a todos os projetos deste Programa e deriva do conceito "Eu sou porque tu és / eu só posso ser Pessoa através das outras pessoas", enquanto definição mais comum do termo Ubuntu. Neste método são trabalhadas, com diferentes ferramentas, cinco dimensões principais: o autoconhecimento, a autoconfiança, a resiliência, a empatia e o serviço. Estas dimensões configuram uma "ética do cuidado" – cuidar de si, dos outros, da comunidade, da natureza, do planeta -que a todos deve inspirar.

Através do Autoconhecimento pretende-se que os participantes aprofundem a consciência de si próprios, conheçam as dinâmicas internas da sua personalidade, das suas emoções, mas também as suas capacidades intelectuais e relacionais. Dessa forma, podem identificar as suas forças e as suas fragilidades, tendo em vista o seu desenvolvimento pessoal, o equilíbrio socioemocional e a potencialização máxima dos seus talentos ao serviço da comunidade.

Com a Autoconfiança pretende-se que, conhecendo-se a si próprio, cada participante confie nas suas capacidades, constituindo-se como ator de mudança positiva, construindo a partir das suas forças e de experiências de vida significantes. É, dessa forma, desafiado a recusar o papel de "vítima", tornando autor da sua própria história. Assim, deseja-se que seja capaz de acreditar, sempre radicado na humildade, que pode ser "a mudança que quer ver no mundo" e ser "senhor do seu destino, capitão da sua alma".

A Resiliência é um ativo que muitos participantes já trarão consigo, pela capacidade que tiveram em enfrentar, com sucesso, a adversidade nas suas vidas. Importa, no entanto, reforçar permanentemente esta sua aptidão de transformar dificuldades em oportunidades, através da recusa de atitudes fatalistas ou resignadas, bem como através da aplicação da sua energia e vontade na gestão dos obstáculos que vão encontrando.

Desenvolvendo a Empatia, através da capacidade crescente de ver e entender o mundo através do ponto de vista dos Outros, sentindo com eles e através deles, os participantes devem tornar-se capazes de se descentrar de si e do seu mundo, de se abrir à interação com toda a família humana. Assim se tornarão corresponsáveis por todos e cada um ("Nada do que é humano me é estranho"). Entenderão melhor, nesta dimensão, a essência do Ubuntu, em que nos tornamos mais humanos, de cada vez que nos deixamos completar pelo Outro.

Finalmente, o método Ubuntu, consagra-se no Serviço, entendido como espírito e forma de ser e de estar em relação. Através do Serviço, liderando se necessário e adequado (liderança servidora), transforma-se e transforma o mundo à sua volta, convocando todas as restantes dimensões do método: conhece-se a si próprio, confia que tem talentos e capacidades, transforma as adversidades em oportunidades, sente e entende com o Outro...e Serve para a promoção e restauração da dignidade humana.